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Domingo, 11 Setembro 2005 21:00

Assim era o Porto de Santos (6)

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As nações marítimas são grandes quando são grandes no mar. O Brasil é, por imposição físico-geográfica, uma nação marítima. Incrementar a marinha mercante e criar uma indústria de construção naval, formando uma consciência marítima, é dever de todos os brasileiros que desejam o progresso e a grandeza do País.

Dando continuidade à série "Assim Era o Porto de Santos", vamos lembrar algumas empresas de navegação nacionais que operavam na cabotagem (navegação doméstica) e nas linhas internacionais, como:

- Pereira Carneiro,
- Lloyd Nacional (não confundir com Lloyd Brasileiro), que possuía navios como o Araraquara e o Aratimbó,
- Companhia Nacional de Navegação Costeira,
- Companhia Paulista de Comércio e Navegação,
- Frota Oceânica Brasileira,
- Companhia Aliança de Navegação,
- Netumar,
- Libra,
algumas ainda em atividade.

 

Trecho do cais de Santos nas proximidades da Praça

Barão do Rio do Branco, em Santos, vendo-se

atracado o Araraquara, do Lloyd Nacional, que foi

afundado por um submarino alemão em 1942.

Nota-se à direita o Santos Hotel e ao fundo a

Alfândega, em construção – imagem de 1932.

 

Santos era sede de armadoras como a Companhia Internacional de Navegação, de propriedade de Modesto Roma, que foi presidente do Santos Futebol Clube.

A Companhia Internacional de Navegação operava no final dos Anos 40 com navios de desembarque adquiridos da US Navy (Marinha dos Estados Unidos), conhecidos como LST (navio de desembarque de tanques), a exemplo do Guaramiranga e Guarani.

Diga-se de passagem, meu pai, Laire Giraud, era médico dessa companhia e amigo particular de Modesto Roma.

 

O célebre Mandu, do Lloyd Brasileiro, que colidiu na

Baía de Santos com o Denderah, de bandeira

alemã, em 1929.

 

Outras armadoras com base em Santos eram a Conoilles Vergara Transportes Marítimos Ltda., que funcionava na Rua Bitencourt, 214 e possuía o navio Sulmar, a Diogo & Cia. Ltda., e a Luciano Castro, entre outras.

Mas a armadora de maior grandeza e destaque - em todos os sentidos - foi a inesquecível Companhia de Navegação Lloyd Brasileiro, que só no ano de 1950 operava com 70 navios.

Este número sem contar os 20 navios adquiridos no pós-guerra junto a estaleiros dos Estados Unidos e Canadá, cargueiros que no meio portuário e marítimo ficaram conhecidos como "bombas", devido ao formato do casco e da superestrutura, que lembrava esse artefato bélico.

Na realidade, eram os navios do Lloyd da Série Nações, por terem como sufixo o nome de países. Assim, eram:

- Loide Argentina,
- Loide Uruguai,
- Loide Colômbia,
- Loide Peru,
- Loide México,
- Loide Panamá,
- Loide Brasil,
- Loide Bolívia,
- Loide Canadá,
- Loide América e

muitos outros, que, no meu ponto de vista, foram os navios de todos os tempos que retratam o que foi o Lloyd Brasileiro, seguidos dos liners (navios de linha regular), que também representam o glorioso passado da companhia.

 

O Loide São Domingos, da série Nações das Américas,

um dos 20 cargueiros encomendados em 1945 a

estaleiros canadenses e estadunidenses, navios subs-

tituídos nos Anos 70 pelos 'liners' da série Itas.

(Reprodução: Livro "Bandeiras nos Oceanos", de J. C. Rossini)

 

O Lloyd Brasileiro foi fundado em 19 de fevereiro de 1890, dois anos antes da inauguração dos 260 metros do cais construído pela Companhia Docas de Santos (CDS), inauguração ocorrida em 2 de fevereiro de 1892, com a atracação do navio britânico Nasmyth, da armadora Lamport & Holt Line.

Como se nota, o Porto de Santos e o Lloyd Brasileiro sempre foram intimamente ligados, pois aqui era o porto em que Lloyd recebia e trazia mais cargas, o que - por motivos óbvios - era bom para ambas as partes.

Só para termos uma idéia, o movimento de seus navios era tão grande, que a companhia no início dos Anos 50 utilizava um rebocador próprio para manobras, o Mestre Sebastião.

Na Década de 70, chegaram os novos Itas, que homenagearam os velhos navios da Companhia Costeira.

Eles ficaram conhecidos como liners. Podem ser citados o Itapuca, Itagiba, Itaité, Itassussé e Itapagé, em um total de 14 cargueiros.

Isto sem esquecer outros navios famosos, como o:

- Lloyd Liverpool,
- Lloyd Genova,
- Lloyd Hamburgo,
- Lloybras,
- Lloyd Altamira,
- Lloyd Humaitá,
- Lloyd Santos,
- Rio Negro,
- Rio Verde,
- Rio Purus,
- Leblon,
- Guanabara,
- Paranaguá,
- Todos os Santos.

 

O Loide Haiti, um dos "bombas", fundeado no Estuário

do Porto de Santos, aguardando atracação. Navegou

durante quase 30 anos. Imagem do final dos Anos 60.

(Reprodução: Livro "Photografias e Fotografias do Porto de Santos").

 

Eram muitos. A invasão de navios do Lloyd no Porto de Santos era tal, que havia dias em que se contavam 17 cargueiros desta armadora atracados simultaneamente no cais! Era realmente impressionante!

Na linha de passageiros, no decorrer do Século 20, o Lloyd gozava de grande conceito, tanto na cabotagem quanto na linha da Europa.

Alguns desses navios foram o Rodrigues Alves, Afonso Pena, Buarque, Cantuária, e os Cisnes Brancos: Princesa Leopoldina, Princesa Isabel, Anna Nery e Rosa da Fonseca.

Durante muitos anos, a agência marítima representante do Lloyd Brasileiro no Porto de Santos funcionou no prédio que anteriormente abrigava o Santos Hotel, na Praça Barão do Rio Branco.

 

O Guanabara, da série Baía, foi construído na Finlân-

dia, juntamente com seus irmãos Todos os Santos,

Turiaçu e Paranaguá. Este último, após abalroamento,

naufragou na Bélgica, em 1968.

 

Esse antigo prédio foi demolido e nos Anos 70 surgiu um novo, pertencente ao IBC – Instituto Brasileiro do Café, atualmente utilizado pela Justiça Federal.

Posteriormente, o Lloyd passou a ser representado com exclusividade no Estado de São Paulo pela Nautilus Agência Marítima, que chegou a ser a maior do Porto de Santos.

No ano de 1972, o Lloyd fez 373 viagens, por meio das suas 15 linhas. Dessas, 14 diretamente sob a sua bandeira e uma através do pavilhão Lloyd Libra.

Só nas linhas européias partiram do cais santista 176 viagens para o Lloyd, que atuava em três rotas: Costa do Pacífico, Golfo do México e Costa Leste dos Estados Unidos, com extensão até Montreal, Canadá. Na linha afro-asiática foram realizadas 58 viagens.

 

O transatlântico Rosa da Fonseca, irmão do Anna

Nery, que fazia parte do quarteto de Cisnes Brancos,

encomendados pela Companhia Costeira, aqui em

1973, passando pela Ponta da Praia, no Porto de

Santos, com a bandeira do Lloyd Brasileiro.

(Reprodução: Acervo J. C. Rossini)

 

Um dos golpes que levaram o Lloyd ao naufrágio foi a decisão do Governo Federal de abrir a navegação brasileira a companhias estrangeiras, com o objetivo de baratear o custo dos fretes. O resultado foi uma acirrada concorrência entre armadoras, e os reflexos foram trágicos para a centenária armadora estatal.

Esse quadro - somado à má gestão, excesso de pessoal e custos trabalhistas, entre outros fatores - levou o Lloyd Brasileiro, em 1997, à extinção.

Com isso, perdemos todos: a Cidade e o seu comércio, o povo santista e o Brasil, que atualmente não possui nada relevante no que tange ao transporte marítimo de contêineres. Que pena!

Este artigo não tem a pretensão de contar a história do Lloyd Brasileiro, nem do Porto de Santos, apenas mostrar alguns fatos marcantes da Cidade.
 
Veja mais imagens:

 

O Itapuí, da série Ita de liners, um dos 14 construídos

a partir de 1968 para o Lloyd Brasileiro. As linhas do

cargueiro eram marcantes – 1973.

(Reprodução: Acervo J. C. Rossini)

 

Anúncio dos Anos 70 do Século 20, usado pelo

Lloyd para angariar carga.

 

Aquarela 481, 16x24, do artista plástico Julio Augusto

Rocha Paes, que mostra o Itaité, o último Ita Liner e

que fez a última viagem para o Mediterrâneo em 1983.